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domingo, 28 de junho de 2009

Poema para iludir a vida...

Tudo na vida está em esquecer o dia que passa.
Não importa que hoje seja qualquer coisa triste,
um cedro, areias, raízes,
ou asa de anjo caída num paul.
O navio que passou além da barra já não lembra a barra.
Tu o olhas nas estranhas águas que ele há-de sulcar
e nas estranhas gentes que o esperam em estranhos [portos.
Hoje corre-te um rio dos olhos
e dos olhos arrancas limos e morcegos.
Ah, mas a tua vitória está em saber que não é hoje [o fim
e que há certezas, firmes e belas,
que nem os olhos vesgos podem negar.
Hoje é o dia de amanhã. (Fernando Namora)

domingo, 3 de maio de 2009

Poema à mãe...



No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe

Tudo porque já não sou
o retrato adormecido
no fundo dos teus olhos.

Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais.

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura.

Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos.

Mas tu esqueceste muita coisa;
esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração ficou enorme, mãe!


Olha — queres ouvir-me? —
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;


ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;


ainda oiço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
no meio de um laranjal...


Mas — tu sabes — a noite é enorme.
e todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber,
Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas.

Boa noite. Eu vou com as aves.

Eugénio de Andrade

Um beijo especial para essa pessoa tão maravilhosa que amo de coração....

sábado, 25 de abril de 2009

Liberdade...

Ai que prazer
não cumprir um dever.
Ter um livro para ler
e não o fazer!
Ler é maçada,
estudar é nada.
O sol doira sem literatura.
O rio corre bem ou mal,
sem edição original.
E a brisa, essa, de tão naturalmente matinal
como tem tempo, não tem pressa...

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto melhor é quando há bruma.
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

E mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças,
Nem consta que tivesse biblioteca...
Fernando Pessoa
Beijinho ENORME e bom feriado ;)!!!

domingo, 12 de abril de 2009

Poema do Futuro...



Conscientemente escrevo e, consciente,

medito o meu destino.



No declive do tempo os anos correm,

deslizam como a água, até que um dia

um possível leitor pega num livro

e lê,

lê displicentemente,

por mero acaso, sem saber porquê.

Lê, e sorri.

Sorri da construção do verso que destoa

no seu diferente ouvido;

sorri dos termos que o poeta usou

onde os fungos do tempo deixaram cheiro a mofo;

e sorri, quase ri, do íntimo sentido,

do latejar antigo

daquele corpo imóvel,

exhumado da vala do poema.



Na História Natural dos sentimentos

tudo se transformou.

O amor tem outras falas,

a dor outras arestas,

a esperança outros disfarces,

a raiva outros esgares.

Estendido sobre a página, exposto e descoberto,

exemplar curioso de um mundo ultrapassado,

é tudo quanto fica,

é tudo quanto resta

de um ser que entre outros seres

vagueou sobre a Terra.



António Gedeão
Beijinho e bom início de semana...

domingo, 5 de abril de 2009

Com tranquilidade....


O meu olhar azul como o céu


É calmo como a água ao sol.


É assim, azul e calmo,


Porque não interroga nem se espanta ...


Se eu interrogasse e me espantasse


Não nasciam flores novas nos prados


Nem mudaria qualquer cousa no sol de modo a ele ficar mais belo...


(Mesmo se nascessem flores novas no prado


E se o sol mudasse para mais belo,


Eu sentiria menos flores no prado


E achava mais feio o sol ...


Porque tudo é como é e assim é que é,


E eu aceito, e nem agradeço,


Para não parecer que penso nisso...)
(Alberto Caeiro....claro está!)
E embora não tenha os olhos azuis como ele, tenho-os de um castanho-agora-tranquilo.... os diálogos que mantive de mim para mim sempre deram o seu fruto e sinto-me bem e em paz!!! "Tudo flui...." como sussurra o eco distante da caverna....
Beijinho e um óptimo Domingo!!! Até mais ver....

domingo, 15 de março de 2009

Diário de Bordo....


"Vivemos com o que recebemos, mas marcamos a vida com o que damos "

E, para mim, as aulas retratam isso mesmo: a DÁDIVA!!! E é bom quando isso se torna contagioso e, de repente, alguém do outro lado também resolve enriquecer-nos! Foi o que aconteceu esta semana: uma criaturinha "apresentou-me" a José Duro... confesso que não conhecia mesmo... e nada de piadinhas com o nome, combinado?! :p Por isso, aqui fica o poema "Doente" e espero brevemente ler mais coisas do poeta alentejano...

Que negro mal o meu! estou cada vez mais rouco!

Fogem de mim com asco as virgens d'olhar cálido...

E os velhos, quando passo, vendo-me tão pálido,

Comentam entre si: - coitado, está por pouco!...


Por isso tenho ódio a quem tiver saúde,

Por isso tenho raiva a quem viver ditoso,

E, odiando toda a gente, eu amo o tuberculoso.

E só estou contente ouvindo um alaúde.


Cada vez que me estudo encontro-me diferente,

Quando olham para mim é certo que estremeço;

E vai, pensando bem, sou, como toda a gente,

O contrário talvez daquilo que pareço...


Espírito irrequieto, fantasia ardente,

Adoro como Poe as doidas criações,

E se não bebo absinto é porque estou doente,

Que eu tenho como ele horror às multidões.


E amando doudamente as formas incompletas

Que às vezes não consigo, enfim, realizar,

Eu sinto-me banal ao pé dos mais poetas,

E, achando-me incapaz, deixo de trabalhar...


São filhos do meu tédio e duma dor qualquer

Meus sonhos de neurose horrivelmente histéricos

Como as larvas ruins dos corpos cadavéricos,

Ou como a aspiração de Charles Baudelaire.


Apraz-me o simbolismo ingénito das coisas...

E aos lábios da Mulher, a desfazer-se em beijos,

Prefiro os lábios maus das negregadas loisas,

Abrindo num ancelar de mórbidos desejos.


E é vão que medito e é em vão que sonho:

Meu coração morreu, minha alma é quase morta...

Já sinto emurchecer no crânio a flor do Sonho,

E oiço a Morte bater, sinistra, à minha porta...


Estou farto de sofrer, o sofrimento cansa,

E, por maior desgraça e por maior tormento,

Chego a julgar que tenho - estúpida lembrança -

Uma alma de poeta e um pouco de talento!


A doença que me mata é moral e física!

De que me serve a mim agora ter esperanças,

Se eu não posso beijar as trémulas crianças,

Porque ao meu lábio aflui o tóxico da tísica?


E morro assim tão novo! Ainda não há um mês,

Perguntei ao Doutor: - Então?...- Hei-de curá-lo...

Porém já não me importo, é bom morrer, deixá-lo!

Que morrer - é dormir... dormir... sonhar talvez...


Por isso irei sonhar debaixo dum cipreste

Alheio à sedução dos ideais perversos...

O poeta nunca morre embora seja agreste

A sua aspiração e tristes os seus versos!

Bigada, um beijinho e bom início de semana :)

segunda-feira, 9 de março de 2009

Gggrrrraaauuu LOL :p


Entre os teus lábios
é que a loucura acode
desce à garganta,
invade a água.
No teu peito
é que o pólen do fogo
se junta à nascente,
alastra na sombra.
Nos teus flancos
é que a fonte começa
a ser rio de abelhas,
rumor de tigre.
Da cintura aos joelhos
é que a areia queima,
o sol é secreto,
cego o silêncio.
Deita-te comigo.
Ilumina meus vidros.
Entre lábios e lábios
toda a música é minha.
Eugénio de Andrade
Beijiiiiiinho afogado em trabalho pffff.... e bom início de semana!!!

domingo, 8 de março de 2009

À mulher....


"A mulher não é só casa
mulher-loiça, mulher-cama
ela é também mulher-asa,
mulher-força, mulher-chama
E é preciso dizer
dessa antiga condição
a mulher soube trazer
a cabeça e o coração
Trouxe a fábrica ao seu lar
e ordenado à cozinha
e impôs a trabalhar
a razão que sempre tinha
Trabalho não só de parto
mas também de construção
para um filho crescer farto
para um filho crescer são
A posse vai-se acabar
no tempo da liberdade
o que importa é saber estar
juntos em pé de igualdade
Desde que as coisas se tornem
naquilo que a gente quer
é igual dizer meu homem
ou dizer minha mulher"
Ary dos Santos
Feliz dia da MULHER!!! Beijinhos....


sábado, 21 de fevereiro de 2009

Carnaval ao contrário....


Este Carnaval, deixem antes cair as máscaras.... e divirtam-se!!!
"Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não."

(Sophia de Mello Breyner)

Beijiiiiiiiiinhos :)

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Pensamentos a cores!

(Há coisas fantásticas não há?!?)
O Poeta morre,
mas não cessa de escrever.
Enquanto escreve,
vive
ressuscitando fugidias horas
mudadas em auroras...
Uma pequenina flor,
pisada por quem passa,
é agora
um milagre de cor,
uma negaça
de mil desejos...
E os beijos
que nunca foram dados,
tornados tão reais...
Aquela borboleta
arrasta
infindas primaveras
no seu voo fremente...
- Uma palavra mais,
Poeta!
Uma palavra quente!
Uma palavra para todo o sempre!

Saúl Dias, in "Essência"

sábado, 31 de janeiro de 2009

Amor e chocolate....

"Sometimes solutions aren't so simple
Sometimes [a big piece of chocolate cake] is the only way...." :p
E já que se fala sobre coisas doces....
"Entre os teus lábios
é que a loucura acode
desce à garganta,
invade a água.

No teu peito
é que o pólen do fogo
se junta à nascente,
alastra na sombra.
Nos teus flancos
é que a fonte começa
a ser rio de abelhas,
rumor de tigre.
Da cintura aos joelhos
é que a areia queima,
o sol é secreto,
cego o silêncio.
Deita-te comigo.
Ilumina meus vidros.
Entre lábios e lábios
toda a música é minha. "
(Eugénio de Andrade)

Beijinhos e um fim-de-semana docinho....

P.S. Até tem bom aspecto, não tem?! Mas agora já não há nem uma fatia :p!

sábado, 24 de janeiro de 2009

Amizade

"Uma criança muito suja atira pedras a um cão.
O cão não foge. Esquiva-se e vem até junto da criança
para lhe lamber o rosto.
Há depois, um abraço apertado, de compreensão
e de amizade. E lado a lado, com a mãozinha muito
suja no pescoço felpudo, lá vão, pela rua estreita,
em direcção ao sol."
(António Salvado)
É bom contar com as vossas mãos.... Bigada!!! Bijitos mil
P.S. Já agora, qual é a minha patita LOL?!?

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

A caminho da Casa Branca um Cão D'Água eu encontrei :)

Sendo hoje a cerimónia oficial da tomada de posse de Barack Obama como Presidente dos Estados Unidos, ocorreu-me que ainda não conhecia o seu futuro cão, ora o que para alguém que adora bicharocos como eu, é algo de grande importância, claro está :)!!! Peço desculpa pelo meu não-conhecimento, mas, curiosa como sou, ZÁS! lá fui eu à procura :p! Portanto, para aqueles que sofrem do mesmo mal de que o eu sofria, aqui fica a foto do wuf wuf d'água português, o sr. Cão Presidencial :)! Como gosto de animais grandes e felpudos (não me refiro,obviamente, a animais racionais de duas patinhas eh eh!), fiquei encantada com este.... tem um ar TÃO meigo, não tem? Dá vontade de meter na "pochete" (way of speaking, of course!) e levar para casa! E agora pergunto-me.... que nome vai ter este agente canino que chegará onde JAMAIS outro português chegou? Sugestões :p?!?
E certamente vai ser bem tratado! Terá mais sorte que muitos compatriotas que ficam por terras lusitanas.... tantas vezes por aí aos pontapés :(!
Bem.... antes de terminar, desejo boa sorte ao representante nacional, e já agora ao Obama (que bem precisa!). A propósito do que aqui falei, deixo-vos ainda um poema do surrealista Alexandre O' Neill que me veio à cabeça sem pedir licença (e quem rima sem querer.... LOL!)
Cão passageiro, cão estrito,
cão rasteiro cor de luva amarela,
apara-lápis, fraldiqueiro,
cão liquefeito, cão estafado,
cão de gravata pendente,
cão de orelhas engomadas,
de remexido rabo ausente,
cão ululante, cão coruscante,
cão magro, tétrico, maldito,
a desfazer-se num ganido,
a refazer-se num latido,
cão disparado: cão aqui,
cão além, e sempre cão.
Cão marrado, preso a um fio de cheiro,
cão a esburgar o osso
essencial do dia a dia,
cão estouvado de alegria,
cão formal da poesia,
cão-soneto de ão-ão bem martelado,
cão moído de pancada
e condoído do dono,
cão: esfera do sono,
cão de pura invenção, cão pré-fabricado,
cão-espelho, cão-cinzeiro, cão-botija,
cão de olhos que afligem,
cão-problema...
Sai depressa, ó cão, deste poema!
P.S. Qualquer semelhança entre o cão do poema e cada um de nós é pura coincidência ;)!

Beijinho e façam o favor de ser felizes! Até mais ver....



segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

"Devia morrer-se de outra maneira...."


Hoje de manhã, preparava-me para ir dar uma aula e, na sala cor-de-laranja, a televisão balbuciava algumas coisas imperceptíveis, mas, de repente, algo prendeu o meu ouvido: "Morreu João Aguardela, vocalista dos Sitiados....bla bla bla....39 anos....bla bla bla.... cancro...."

E, embora nunca tivesse sido um grupo de eleição, fiquei a ver umas fotos antigas que passavam na pequena janela e senti uma certa nostalgia, porque há coisas que nunca se esquecem! Quem não se lembra, por exemplo, daquela.... essa mesmo que estão a pensar: "Esta vida de marinheiro está a dar cabo de mim raparaparaparaparaparaparim!" Enfim, termina assim uma viagem.... Pensei em como é tão injusta esta forma de morrer! Lembrei-me, então, das palavras de José Gomes Ferreira:

"Devia morrer-se de outra maneira.

Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.

Ou em nuvens.

Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol

a fingir de novo todas as manhãs, convocaríamos

os amigos mais íntimos com um cartão de convite

para o ritual do Grande Desfazer: "Fulano de tal comunica

a V. Exa. que vai transformar-se em nuvem hoje

às 9 horas. Traje de passeio".

E então, solenemente, com passos de reter tempo, fatos

escuros, olhos de lua de cerimónia, viríamos todos assistir

à despedida.

Apertos de mãos quentes. Ternura de calafrio.

"Adeus! Adeus!"

E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento,

numa lassidão de arrancar raízes...

(primeiro, os olhos... em seguida, os lábios... depois os cabelos...)

a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se

em fumo... tão leve... tão subtil... tão pólen...

como aquela nuvem além (vêem?) — nesta tarde de Outono

ainda tocada por um vento de lábios azuis…"

O que vos parece?! Não seria tão mais justo? Tão mais fácil?

Enfim.... boa continuação de semana, deixo um beijinho e até mais ver....